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by André Baldo
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Published on September 2, 2026 · Riffable
O ar era pesado na cozinha. Sussurros eram o máximo que se ouvia, vindo dos habitantes, que tentavam acalmar Rosa, ainda despedaçada por ter brigado com o cravo. Garfulano, que não sabia do ocorrido, chegou saudando:
- Colheres! Cheguei!
Os outros objetos pediram silêncio:
- Calma - disse Facamigos - um facão que, por mais sério que fosse, não era um sujeito insensível. - A Rosa ficou triste, desde ontem à tarde.
- Nossa! O que é que ela tinha? - perguntou Garfulano.
- Latinha sou eu! - falou Lateca - uma pequena lata de fermento, que, de tão viciada em apostas, raramente prestava atenção no que se falava perto dela.
- Não é isso! - disse Garfulano. - A Rosa começou a chorar desde ontem e, pelo que percebo, continua triste.
- Um prato de trigo sempre funciona para mim! - falou um tigre trigêmeo.
- Não, tigrinho! O que vai funcionar agora é uma boa cravada no Cravo - falou Geraldeira.
- Você deveria esfriar as coisas, mas gosta é de inflamar o debate - foi a vez de Batedalva agitar ainda mais a situação.
Bastou essa rusga para instaurar a confusão completa. Uns defendiam o Cravo, acusando a Rosa de se despedaçar por qualquer coisa. Outros lembravam de que ela fora a única a visitar o Cravo em sua enfermidade.
A temperatura na cozinha estava altíssima. Fornoaldo estava vermelho e não se conteve depois de escutar tanta baboseira.
- Todos calados! - gritou Fornoaldo, soltando fumaça pela boca. - Vocês estão todos enganados. Não percebem que a tristeza da Rosa não tem nada a ver com Cravo? Não dessa vez. - completou com a voz embargada.
Silêncio e olhares cruzados na cozinha, ninguém entendeu nada.
- Não é possível que vocês não sentiram a falta dele até agora! - foi a vez de Rosa quebrar o silêncio.
Foi como se todos despertassem de uma hipnose para acordar em um pesadelo. Não foi preciso explicar mais nada, todos sabiam quem tinha desaparecido!
- Gassombro, sumido novamente... - murmurou Fornoaldo. - Isso definitivamente não cheira bem!
- Deve ter sido raptado pelo Butijão, o fantasma capturador! - replicou a sempre pessimista e sem freon Geraldeira.
- Você definitivamente não gosta dele, né? - perguntou, retoricamente, Rosa.
- Você sabe o motivo de eu estar assim agora, Rosa. - disse Geraldeira, começando a ficar esquentada. - Ou vai dizer que não se lembra do que ele fez comigo?
- Não adianta ficarmos aqui discutindo. - disse Fornoaldo, sentindo a falta do amigo. - Vamos procurar Butijão para saber se ele escondeu o Gassombro.
Mal acabaram de falar...
- E aí? O que é que está rolando?
Todos se viraram para a direção da voz.
- Rolando vai ficar você se não disser onde escondeu nosso amigo!
- Me acusando novamente, Geraldeira? Já estou cheio, sabia? Cheio! - gritou Butijão, visivelmente descontrolado.
Pâmela, a paneleira, diz:
- Como é que posso ajudar, se estou aqui presa no armário?
- Nossa, está ficando tão quente aqui... gente, acho que o Gassombro está por aqui. Mas... como ele teria entrado se o armário está fechado?
- Lá vem você com teus problemas internos, Pâmela! Menos! Pausa! - disse Batedalva.
De repente, Pi Ano, um calendário circular que gostava de música e já tinha lido quilos e até toneladas de livros para interpretar LiBraS, além de língua de sinais do mundo inteiro, pediu a palavra:
- Gente! O Relojóia quer falar.
Gesticulando e tictaqueando freneticamente, Relojóia expôs sua opinião, enquanto Pi Ano dublava sua antiga voz:
- Eu duvido que o desaparecimento do Gassombro não tenha sido artimanha desses dois... - e parou os ponteiros em Batedalva e Fornoaldo, respectivamente.
- Como assim? - guinchou Batedalva, inconformada. - Eu tô quieta aqui!!!
- Todo mundo sabe que, sempre que tem algum bolo em Trocadilândia, você tá envolvida. Já esse ali ainda vai me pagar pelo que me fez. Assa-sino!!!
- Pensei que já havíamos conversado sobre isso - disse Fornoaldo lentamente. Você se lembra que o teu sino parou dentro de mim depois que você tossiu. Foi um acidente. E quanto a pagar, olhem bem pra mim! Eu já fui preso por esse ocorrido. E foi pena máxima, lembram? Olhem pra mim! Olhem!
Todos olharam para a porta de Fornoaldo, onde ele mostrava uma foto dele enrolado firmemente em uma pena de 2,40 metros de comprimento.
- Outra coisa: - continuou. Alguém esteve comigo e se regenerou na mesma época. Não foi, Patrícia?
Um réptil acabava de chegar no local, se movendo de maneira desequilibrada.
- Chegou alguém com solução, - gritaram todos.
- *hic*! *hic*! *hic*!
- O que houve agora? - perguntou Garfulano, tentando se esconder do cheiro forte.
- Vocês não queriam solução? Produzi logo três!
- Nem regenerada você sai do lagar, Tixa? - perguntou Fornoaldo com ternura.
- É bem de lá que eu vinho! Ha ha. - disse ela. - Mas antes que comecem as broncas, que é que tá pegando, hem?
- Na verdade, - disse Facamigos esticando a lâmina ameaçadoramente, - você era a única que estava fora daqui faz tempo. É melhor que você conte onde está o Gassombro antes que eu te corte em pedacinhos!
- Corta, querido! Corta! Eu me remonto! E eu nem ando perto do lagar ou de outros pontos com bebidas perto dele. Ele diz que eu fico muito inflamada!
- Tá... Desculpa... - disse Facamigos, recolhendo a lâmina. - Mas ao menos você sabe onde ele está?
- Antes de cortar alguém, vale coar as histórias - disse Coalberto, ainda pingando.
- Tixa, por onde você andou? - perguntou ele.
- Andei por cima de todo mundo, como sempre. Ninguém repara em quem anda no teto - respondeu Tixa.
- Você tá sendo evasiva, Tixa - espetou Palitofute.
- Evasiva eu? Quero ajudar, querido. Sou a única aqui que me apego até pelas paredes - defendeu-se Tixa.
- Se apega tanto assim, por que largou o rabo e sumiu ontem? - insistiu Palitofute.
- Olha só, seu palito, é melhor você ficar calado antes que dê com a língua entre os dentes, como sempre faz - esbravejou Tixa.
Coalberto filtrou toda a conversa, achando tudo muito estranho. E tentou desviar o foco antes que a discussão entortasse de vez.
- Voltemos ao Gassombro, pessoal. Alguém o viu?
Ninguém respondeu. Foi quando Escorredoralina deixou escapar:
- Vocês sabem que eu não retenho nada. Eu não o vi, mas ontem à noite eu ouvi um assobio fininho, fininho. Durou um bom tempo e depois parou de repente.
- Assobio? Mas a dona Chalaura foi doada há meses - estranhou Fornoaldo.
- Não esse tipo de assobio! - disse Escorredoralina. - Algo mais seco. Mais tremulante...
Nesse instante, Janelilda se abriu:
- Eu sempre servi a todos nessa casa, de corpo e de alma. Mas considerando os últimos acontecimentos, devo falar: Gassombro desapareceu em um descuido da minha parte.
- Des...cuido?!?!?! - falaram todos.
- Sim. Eu estava olhando a briga do cravo com a rosa e rangendo de raiva. Nisso, agora me lembro... Ele passou por mim e nem sei onde está.
Enquanto Janelilda ainda falava, alguém de aparência feminina passou por ela cavalgando:
- Ei! Viu o Gassombro?
Antes de desaparecer, a figura ainda respondeu:
- Não sei nada sobre isso.
Porém, a tira de couro que ela carregava caiu de suas mãos, e também foi questionada:
- Onde está o Gassombro?
A resposta logo veio:
- E eu lá sei?
Nisso, Pi Ano falou:
- O Relojoeiro tá sugerindo que a Tixa vá procurar o Gassombro lá na varanda.
- Bela sacada! - disse o tigre trigêmeo. Eu vou com ela para protegê-la de algum perigo.
Patrícia, já mais sóbria com os acontecimentos, seguiu com o tigre. Este, vendo que não havia riscos por perto, resolveu sentar na almofada que estava sobre o banco e fazer uma oração para o sucesso da busca. No mesmo instante, de um buraco da almofada, ouviu:
- Pummmpresa!!!
- Não é possível! - pensou ele. - Quanto mais eu rezo, mais Gassombração aparece!
De dentro da almofada, Gassombro e toda a sua família, que veio conhecer os moradores de Trocadilândia, saiu pelo orifício. Urrando de raiva e alegria ao mesmo tempo, o tigre avisou:
- Libera as panelas, Pâmela! Tem visita aqui!
Tixa, indignada por ainda não ter visto a chegada de Gassombro, começou:
- Visita? A gente procurando o Ga... Nossa! Quem são vocês?! Prazer!
Gassombro, então, apresentou, um a um, seus parentes. Depois da introdução, falou:
- Eu avisei a filha do cravo com a Rosa que eu já voltaria. Sabia que ela não falaria sobre a surpresa.
- Engraçadinho! Só porque ela é muda, né? - gritou Rosa, lá da cozinha. - E por falar no cravo, onde está ele agora? Nós brigamos, mas nos amamos!
Rosa, então, saiu desesperada e encontrou o cravo sozinho em um lugar fétido.
- O que você está fazendo aqui, meu amor?
- Estou na fossa desde que brigamos! Não me deixe só!
Os dois logo se abraçaram, ignorando os espinhos do relacionamento.
Depois do almoço com a família de Gassombro, houve uma reunião na casa. Nela, foi decidido o seguinte:
Geraldeira, antes sem freon, agora ganhou reforço e vive cheia de gás;
A filha muda do cravo e de Rosa ganhou suporte de Pi Ano, que, a cada semana, tinha uma quarta suspensa para descansar e uma quinta aumentada para o trabalho extra. Isto até encontrarem um médico de plantinha para examinar a voz da jovem, já que em Trocadilândia só havia médico de plantão;
Relojóia ganhou um sino novo e Fornoaldo teve um reposicionamento dentro da casa, selando a amizade dos dois...
Porém, faltava algo. Uma curiosidade de Rosa precisava ser sanada:
- Tigre! - disse ela. - Você disse que pratos de trigo fazem bem para você quando está triste! Por quê?
- É que, pra não magoar quem eu amo, eu devoro trigo de maneira louca e desenfreada. Então, eis aqui a minha confissão...
Eu sou um cereal killer!
FIM
The end!
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Chapters in this book
© 2026 André Baldo, Leandro Resende Gomes and 1 more · Published on Riffable · All rights reserved.
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